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4.5.09

primeiramente surgiu o vazio (caos); a seguir a terra opulenta, o sólido e eterno lar de todos, e eros (desejo), o mais belo dos deuses imortais, que abranda a força e sobrepuja os prudentes desígnios da mente. do vazio vieram e escuridão e a negra noite, e da noite saíram a luz e o dia, seus filhos, concebidos da união amorosa com a escuridão. a terra produziu primeiramente urano, o céu estrelado, igual a ela em tamanho, para que a cobrisse por inteiro. a seguir, produziu as montanhas elevadas, os agradáveis retiros dos deuses, e também deu à luz as águas estéreis, o mar de vagas estrepitosas - tudo isto sem a paixão do amor. depois, deitou-se com urano e deu à luz oceano, de águas profundas. céu, crio, hipérion e japeto; téia, réia, têmis (justiça) e mnemósine (memória); também febe, da tiara dourada, e a bela tétis. depois dests veio o astuto crono, o mais jovem e mais ousado dos filhos da terra; e quando cresceu odiou o pai que o havia gerado.

a terra deu à luz também os violentos ciclopes - trovão, relâmpago e raio -, que fizeram o trovão e o raio e os presentearam a zeus. eram semelhantes aos deuses em todos os aspectos, exceto pelo fato de terem um único olho no meio da testa e de sua força, seu poder e sua habilidade estarem nas mãos.

a terra e urano tiveram ainda mais três filhos grandes, fortes e horrendos: coto, briareu e gies. os indivíduos desta ninhada indisciplinada tinham cem mãos monstruosas que saíam de seus ombros, e cinquenta cabeças também no alto de seus ombros. a seu tamanho enorme contrapunha-se força monstruosa.

dentre todos os filhos nascidos da terra e urano estes eram os mais audaciosos e seu pai odiou-os desde o princípio. quando cada um deles estava para nascer, urano não permitia que visse a luz do dia, pois logo o enterava nas entranhas da mãe-terra. urano tinha prazer em praticar essa maldade. apesar de seu tamanho enorme, a terra sentia a tensão dentro de si e gemia. afinal, ela concebeu um plano astuto e maléfico. produziu instantaneamente um novo metal, aço cinzento, e fez uma grande foice. falou então francamente aos filhos, a angústia em seu coração fazendo-a proferir as palavras corajosamente: "meus filhos, vosso pai é cruel; se me ouvirdes, poderemos nos vingar deste ultraje perverso: foi ele que começou a usar de violência".

assim falou ela, mas todas as crianças ficaram paralisadas pelo medo e nenhuma proferiu palavra. então o grande crono, o astuto embusteiro, criou coragem e assim respondeu à sua boa mãe: "mãe, estou disposto a empreender e executar teu plano. não tenho respeito pelo nosso infame pai, visto que foi ele quem começou a usar de violência".

assim expressou-se ele, o que muito agradou à grande terra. ela pôs o filho de emboscada, colocou nas mãos dele a foice dentada e ensinou-lhe que fazer. o colossal urano chegou trazendo a noite atrás de si, propenso para o amor; deitou-se em cima da terra, estendendo-se todo sobre ela. então, servindo-se da mão esquerda para sair do esconderijo, e empunhando com a direita a grande foice de dentes agudos, crono rapidamente ceifou os órgãos de seu próprio pai e os lançou fora. o sangue que brotou do ferimento foi absorvido pela mãe-terra, e, no decurso dos anos, ela deu à luz as poderosas enírias (deusas da vingança) e os enorme gigantes, de armadura brilhante e lanças compridas. quanto aos órgãos de urano, durante muito tempo permaneceram flutuando na superfície do mar, exatamente como eram quando crono os decepou e ali os lançou; depois uma espuma branca originou-se da carne divina e nessa espuma uma jovem começou a crescer. primeiramente a jovem foi transportada à divina citera; depois chegou a chipre, a terra cercada pelas ondas. ali aportou, uma deusa delicada e bela, e à volta de seus pés esguios a relva verde crescia. é chamada afrodite por deuses e homens porque cresceu na espuma, e também citérea, por ter chegado perto de citera, e cipriana, por ter nascido na ilha de chipre. eros (desejo) e a bela paixão foram seus acompanhantes tanto em seu nascimento como quando foi unir-se à família dos deuses. são estes os direitos e privilégios que lhe foram designados desde o princípio e que são reconhecidos por homens e deuses: superintender os sussuros, sorrisos e artimanhas das moças, bem como o deleite e a ternura do amor.

o grande pai urano chamou os filhos de titãs, por causa de sua rixa com eles: disse que eles cegamente tinham apertado o laço e tinham praticado um ato cruel pelo qual teriam que pagar no futuro.