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2.6.08
desdêmona: (...) dize-me, emília: acreditas, com toda consciência, que existam mulheres que enganam os maridos de maneira tão grosseira?
emília: acredito que sim, não há dúvida.
desdêmona: farias ato semelhante em troca do mundo inteiro?
emília: vejamos, não o faríeis?
desdêmona: não, por esta luz celeste!
emília: nem eu, tampouco, por esta luz celeste. preferiria fazê-lo em plena escuridão.
desdêmona: farias tal ato em troca do mundo inteiro?
emília: o mundo é uma coisa considerável. seria um grande preço para um pequeno pecado.
desdêmona: estou certa de que não farias.
emília: estou certa de que faria e pronta a desfazer quando tivesse feito. por deus! é claro que nã faria semelhante coisa nem por um anel duplo, nem por algumas peças de cambraia de linho, nem por vestidos, anáguas, nem por chapéus, nem por qualquer pequeno adereço, mas pelo mundo inteiro!... por deus! quem não poria chifres no marido para fazê-lo monarca? eu arriscaria até o purgatório para conseguir isso.
desdêmona: seja eu amaldiçoada, se fizer semelhante iniquidade, pelo mundo inteiro!
emília: ora, a iniquidade só é iniquidade para este mundo, e tendo o mundo como prêmio de tê-la praticado, não seria iniquidade, num mundo que é vosso, o que bem permitiria transformá-la em mérito.
desdêmona: não acredito que exista semelhante mulher.
emília: sim, uma dúzia e mais ainda outras para abastecerem o mundo que lhes serviria de jogo. mas eu acredito que, quando as mulheres caem, é por culpa dos maridos, se não cumprem seus deveres e derramam nossos tesouros em regaços estranhos, ou, então, estalam em ciúmes mesquinhos, impondo-nos restrições; ou ainda, nos batem e reduzem nosso orçamento habitual, então sim, não somos pombas sem fel e, embora possuamos certa virtude, não temos falta de espírito de vingança. que os maridos fiquem sabendo que suas mulheres possuem sentidos iguais aos deles; vêem, cheiram, possuem paladar, não só para o doce como para o amargo, exatamente como eles possuem. que procuram quando nos trocam por outras? será prazer? acho que é. são levados pela paixão? acho que sim. é fraqueza que os faz errar assim? acho que é também. pois bem, não temos nós paixões, desejos de prazer e fraquezas como têm os homens? tratem-nos então bem! caso contrário, saibam que os males que nos causam nos autorizam a causar-lhes outros males!
otelo, o mouro de veneza.
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