|
15.1.08
num passado remoto, o homem deve ter ouvido com assombro o som de batidas regulares que vinham do fundo de seu peito, sem conseguir saber o que seria aquilo. não podia identificar-se com um corpo, essa coisa tão estranha e desconhecida. o corpo era uma gaiola e dentro dela, dissimulada, estava uma coisa qualquer que olhava, escutava, tinha medo, pensava e espantava-se; essa coisa qualquer, essa sobra que subsistia, deduzido o corpo, era a alma.
hoje, é claro, o corpo deixou de ser um mistério, sabemos que o que bate no peito é o coração, o nariz nada mais é que a extremidade de um cano que leva oxigênio aos pulmões. o rosto nada mais é que o painel onde terminam todos os mecanismos físicos: a digestão, a visão, a respiração, a reflexão.
depois que o homem aprendeu a dar nome a todas as partes de seu corpo, esse corpo o inquieta menos. atualmente, cada um de nóis sabe que a alma nada mais é que a atividade da matéria cinzenta do cérebro. a dualidade da alma e do corpo estava dissimulada por termos científicos; hoje, isso é um preconceito fora de moda que só nos faz rir.
mas basta amar loucamente e ouvir o ruído dos intestinos, para que a unidade da alma e do corpo, ilusão lírica da era científica, imediatamente se desfaça.
|