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13.7.07
"quando era garoto e folheava o antigo testamento para crianças, ilustrado com gravuras de gustave doré, via nele o bom deus em cima de uma nuvem. era um velho senhor, tinha olhos, um nariz, uma longa barba, e eu dizia a mim mesmo que, como tinha boca, devia comer. se comia, devia ter intestinos. mas essa idéia logo me assustava, porque, apesar de pertencer a uma família pouco católica, sentia o que havia de sacrílego nessa idéia dos intestinos do bom deus. sem o menos preparo teológico, a criança que eu era naquela época compreendia espontaneamente que existe uma incompatibilidade entre a merda e deus, e, por dedução, percebia a fragilidade da tese fundamental da antropologia cristã, segundo a qual o homem foi criado à imagem e semelhança de deus. das duas uma: ou o homem foi criado à imagem e semelhança de deus – e então deus tem intestinos –, ou deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele. os antigos gnósticos pensavam tão claro como eu aos cinco anos. para resolver esse maldito problema, valentino, grão-mestre da gnose do século II, afirmava que jesus “comia, bebia, mas não defecava”. a merda é um problema teológico mais penoso que o mal. deus dá liberdade ao homem e podemos admitir que ele não seja o responsável pelos crimes da humanidade. mas a responsabilidade pela merda cabe inteiramente àquele que criou o homem, somente a ele."
(m.k.)
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