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25.9.06
na tradição soto zen existem seis mundos ou planos espirituais: o mundo dos infernos, dos animais, dos espíritos revoltados e briguentos, dos espíritos insaciáveis, dos seres humanos e dos seres celestiais. esses mundos formam uma roda que gira sem parar. algumas pessoas pensam que isso se refere a diferentes encarnações, vidas sucessivas, mas no budismo se aprende que em um mesmo dia, talvez até mesmo apenas em uma hora, podemos passar pelos seis mundos. eles seriam a roda de samsara, o transmigrar incessante de um mundo a outro. ora feliz e angelical, ora sofrendo terríveis torturas, ora brigando e reclamando, ora insatisfeita, ora seguindo apenas os instintos animais, ora como humanos entre o ir e vir do saber e não saber.
não sei muita coisa sobre o budismo, mas acho uma doutrina interessante; gosto de estudar o simbolismo das religiões, e, embora tenha abandonado a minha, tenho minhas crenças particulares, como qualquer pessoa, até mesmo os ateus. aliás, não acredito em ateísmo, pelo menos não do jeito que ele é explicado, não acredito mesmo que alguém possa não acreditar em deus sob nenhuma forma. até porque, como diz a minha mãe: na hora do aperto, ninguém é ateu. mas enfim, não é bem isso que eu quero discutir. gosto muito dessa explicação sobre a roda de samsara, acho mesmo que ela se aplica à minha vida. tenho um humor um tanto instável, e é tão delicioso e interessante imaginar que há uma influência como essa atuando sobre mim, não como um modo de isenção da culpa dos meus atos nem de dizer que não posso fazer nada para melhorar, mas como algo inevitável, que causa reviravolta e serve de explicação pras coisas. mais ou menos como a astrologia serve pra explicar traços da personalidade, mais eficientemente (ou pelo menos mais convincentemente) que muitos aspectos da psicologia.
ainda segundo o budismo, a roda de samsara tem a ver com o alcance do nirvana:
mestre dogen (1200-1253), fundador da tradição soto zen no japão, disse: "muitos pensam que para entrar no estado de nirvana, de paz e tranqüilidade sábias, de harmonioso extinguir das paixões e apegos, é preciso morrer ou afastar-se do mundo, da família, do trabalho, de suas atividades e relacionamentos, ir morar nas cavernas nos montes remotos; entretanto, a própria roda de samsara é o nirvana. se percebermos esse constante transmigrar, não estaremos apenas sofrendo ou regozijando, mas aprendendo, compreendendo, transcendendo, transformando e crescendo. nirvana não está separado de nossa vida, de nossos relacionamentos, de nosso trabalho, do trânsito, dos problemas e dificuldades. nirvana é um estado de espírito. é perceber tudo isso e conseguir não entrar em nenhum dos seis mundos. é ficar acima de tudo.
o que não é, de forma alguma a minha intenção. eu preciso muito sentir as coisas, e não ficar "acima" delas... esta última explicação não me agrada tanto, mas acho que alguém menos passional se identificará com as palavras do mestre dogen...
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